Por que o Rio não tem festivais de música?

Apesar de alguns mega eventos na programação anual, o Rio de Janeiro estranhamente carece de festivais de música, principalmente daqueles que abrem mais espaço para novos artistas.


Imagem de divulgação do Rock in Rio | Artigo Rebuliço - Autor: João Suprani - Título: Por que o Rio não tem festivais de música? - Capa para o site sem título

Considerando que o Rio de Janeiro acabou de sediar um dos maiores festivais do mundo pela sétima vez, talvez o questionamento do título pareça nonsense. Mas não. Por mais interessante que o Rock in Rio e suas atrações sejam – especialmente o Palco Sunset, diga-se de passagem -, não consigo colocá-lo na categoria “festival de música”. Mesmo que sua origem seja musical, hoje ele é, inegavelmente, um grande parque de diversões. Além de milhares de outras atrações e, claro, do hype, o evento tem shows de música.

Considerando essa afirmação, ter o Rock in Rio e todo o business gerado por ele como única ou rara referência de festival de música na cidade é sintomático da desvalorização da nossa produção artística. Auto-proclamada capital cultural do Brasil, hoje a cidade se limita a mega eventos esporádicos com artistas mainstream, que concentram toda a atenção da mídia e público, enquanto as pequenas e médias produções, sem expectativa de crescimento, se desdobram para viabilizar a arte, ir além do nicho e apresentar algo fora do padrão.

Espaço do Rock in Rio com visão da Roda Gigante - Espaço interno na festa Pseudo Cult | Artigo Rebuliço - Autor: João Suprani - Título: Por que o Rio não tem festivais de música? - Imagem 01

Seria injusto ignorar a boa oferta de shows nacionais que a cidade recebe, especialmente em casas como Circo Voador e Vivo Rio, mas estamos falando de outra coisa. Além de permitir que os artistas apresentem o trabalho para um público já conquistado, os festivais fazem surgir novas relações. Tanto entre artistas, quanto entre o público e bandas que talvez ele nunca tivesse ouvido falar. E mais, entre pessoas que se conhecem com a música como ponto de conexão.

Vivemos um momento de consolidação da cena de festivais de música independente no Brasil. A democratização da produção musical aumentou a oferta de bons artistas e os festivais, crescendo com o respaldo de incentivos públicos, tornaram-se vitrines importantes. Em um mercado ainda difícil de se estabelecer, mesmo com formas mais viáveis de distribuição, a curadoria atenta dos festivais se colocou entre as principais responsáveis por chancelar a qualidade de artistas e despertar interesse sobre eles.

Há diversos exemplos de festivais pelo Brasil que se estabeleceram dentro de suas cidades e fomentaram a música brasileira. Com bons line-ups, aproximaram artistas de relevância nacional a novos nomes e, consequentemente, estimularam o turismo e a economia locais. Festivais como o Bananada, de Goiânia-GO, o Do Sol, de Natal-RN, o BR 135, de São Luís-MA, e o Coala Festival, de São Paulo-SP, são casos de sucesso, que despertaram interesse do público e foram mudando de porte ao longo de suas edições. O crescimento, no entanto, não mudou o perfil desses festivais, que seguiram abrindo espaço para novos nomes, inclusive das cenas de suas cidades e Estados.

Nesta semana, o Natura Musical, programa mais importante de fomento à música independente do país, anunciou o resultado de seu edital 2018. Além do patrocínio a artistas, pela primeira vez o projeto incluiu uma categoria voltada para festivais. O edital contemplou 10 festivais ao redor do Brasil, que contarão com aporte financeiro e suporte da empresa para divulgação. A mudança de estratégia partiu da necessidade de incentivar um movimento que já vinha acontecendo e se mostra cada vez mais importante para que  a música contemporânea nacional chegue a um público maior e mais diverso.

19ª edição do Festival Bananada, realizada em 2017 na cidade de Goiânia | Artigo Rebuliço - Autor: João Suprani - Título: Por que o Rio não tem festivais de música? - Imagem 02

Entre os selecionados, um representante do Rio de Janeiro. O Festival Faro MPB é uma extensão do programa semanal Faro MPB, atualmente apresentado na rádio Sul América Paradiso. Após 5 edições entre 2010 e 2014, o Faro retorna como um fio de esperança para a cena da cidade. Apesar da proposta interessante e de ter apresentado nomes de destaque na música brasileira, o festival só conseguiu voltar a ser realizado, após um hiato de 4 anos, devido à renovação do Natura Musical. O exemplo do Faro MPB confirma a dificuldade que os festivais cariocas têm de se firmar e seguir sendo realizados na cidade. Não posso deixar de comentar, sem compromisso, que Fabiane Pereira, apresentadora do Faro MPB, idealizadora do festival e nome importante da nova música popular brasileira, integrou o grupo de curadores do Natura Musical de 2018. Ou seja, talvez esse exemplo seja realmente uma exceção.

No Rio, a sensação é que não há espaço para festivais se estabelecerem, principalmente quando pensamos nos novos. Enquanto os mega-eventos parecem inalcançáveis para artistas em início de carreira, para nós, produtores, trazer artistas de outros Estados e viabilizar festivais que sejam impactantes e sustentáveis financeiramente parece inviável. Apesar de haver alguns festivais engatinhando na cidade que abraçam o conceito da nova produção brasileira e carioca, como o Circuladô, o CINE GIRO , O Passeio é Público, e o Levada, uma incerteza permanente na produção cultural da cidade impede que expectativas sobre próximas edições sejam criadas.

Artistas da primeira edição do festival Circuladô, realizado no Rio em 2016 | Artigo Rebuliço - Autor: João Suprani - Título: Por que o Rio não tem festivais de música? - Imagem 03

Mas afinal, por que fazer festivais de pequeno e médio porte no Rio de Janeiro é tão difícil? Cravar os motivos não parece tarefa fácil, então prefiro fechar essa reflexão com algumas questões que, mesmo sem reposta, podem incentivar o debate e, quem sabe, colaborar com o surgimento de alternativas e soluções.

A vocação do Rio são os mega-eventos?

Repleto de manifestações culturais espontâneas acontecendo em todo canto, o Rio tem diversos eventos pequenos e consagrados que seguem acontecendo e cativando novas pessoas. Com os festivais de música não deve ser diferente. É improvável que uma cidade que preza pelo convívio em espaços públicos e pela informalidade em seu melhor sentido só abrace eventos de grande estrutura.

Os patrocinadores querem grande visibilidade garantida?

O Rio é uma grande vitrine para qualquer empresa que pretende maior exposição e é compreensível que as marcas prefiram alocar seus recursos em mega-eventos, que certamente atingirão um público maior. Talvez um erro do setor da cultura seja seguir insistindo em buscar parcerias com grandes empresas. Talvez dialogar com empresas menores e apresentar os benefícios trazidos pelos projetos culturais possa ser uma saída interessante.

O poder público incentiva pouco a cena local?

Além dos editais e políticas de incentivo escassas, as produções ainda esbarram no excesso de burocracia para realização de eventos na cidade. Há algumas poucas movimentações voltadas para o fomento da música no Rio de Janeiro, mas que ficam limitadas perante as dificuldades financeiras vividas tanto pelo Estado, quanto pelo município. Recentemente, a Secretaria de Estado de Cultura promoveu um debate sobre festivais de música, que propôs uma análise do cenário brasileiro. A iniciativa, apesar de bastante tímida, me pareceu mais genuína que o programa Rio de Janeiro a Janeiro. Fruto de parceria entre Governo Federal, Estadual e Municipal, o projeto busca a realização de 100 eventos fixos no calendário da cidade a partir de 2018. A proposta, no entanto, é focada nos grandes eventos, o que demonstra que o poder público segue com uma visão muito restrita a fomentar o turismo, sem perceber que a criação de um público interno é uma alternativa mais barata que também pode despertar interesse em pessoas de outros lugares.

O público carioca está mal acostumado?

Os cariocas nunca foram um público fácil. Muitos produtores já colocaram as incertezas e dificuldades em realizar eventos na cidade, devido à grande quantidade de opções e à grande influência que tendências locais têm sobre o público. Muitas vezes surgido de forma espontânea, o famoso “hype” dificulta o trabalho de quem quer chamar atenção para eventos que não estão dentro das características da moda. Recentemente, a oferta de eventos gratuitos também tornou-se um complicador para muitas produções, visto que o público passou a ignorar opções pagas. Diversas casas de shows e eventos da cidade já manifestaram as complicações financeiras causadas, em parte, pela dificuldade em atrair público para eventos que não fossem gratuitos.

Falta articulação entre os produtores?

Há muitos produtores desenvolvendo projetos interessantes na cidade, mas cada vez mais é importante que essas iniciativas se conectem. Os projetos colaborativos têm ganhado espaço, mas é necessário que haja diálogo constante e planejamento conjunto. Todas as questões levantadas anteriormente trazem dificuldades reais para a produção cultural da cidade e a profissionalização de toda a cena será crucial para que todas as esferas, do governo ao público, passando pelas empresas, compreendam que a nova música produzida no Rio e no Brasil deve ser fomentada e pode ser consumida.

Roberto Medina, fundador e presidente do Rock in Rio | Artigo Rebuliço - Autor: João Suprani - Título: Por que o Rio não tem festivais de música? - Imagem 04

Esse texto não tem, definitivamente, o intuito de trazer uma solução ou identificar os responsáveis pela escassez de festivais de música relevantes no Rio de Janeiro. A proposta é levantar a questão, ressaltar a importância da discussão e criar um ponto de partida para que seja feita.

Não podemos contar com os braços abertos do Rock in Rio. Um evento que se alimenta de tendências pode, a qualquer momento, passar a ignorar os artistas nacionais. Novos espaços precisam ser incentivados e criados para que nossa música siga sendo produzida com qualidade e tenha cada vez mais alcance.

João Suprani

Designer, produtor cultural e exímio frequentador de botecos e eventos no Centro do Rio. Paga de amante da MPB, mas se rende ao brega com alguma frequência. Não à toa, criou uma festa chamada Pseudo Cult. É apaixonado por música e faz bicos de DJ, além de ser um saudosista e nunca dispensar um amendoim aperitivo.

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