A glamourização do cover é um problema?

Uma reflexão sobre o impacto que as inúmeras versões de hits (e seus milhões de views) podem causar na música brasileira.


Gabi Luthai se apresentando em seu canal do Youtube | Artigo Rebuliço - Autor: João Suprani - Título: A glamourização do cover é um problema?

Desde que comecei a trabalhar com músicos em início de carreira, há mais ou menos 3 anos, venho – com alguma frequência – sendo questionado: “Por que eles não postam uns covers no YouTube?”. Confesso que já avaliei essa possibilidade algumas vezes, mas após refletir um pouco, passei a ser enfático na resposta: “Sou MUITO contrário a essa ideia”. Geralmente deixo algumas pessoas com cara de interrogação, é verdade, mas sempre tento esclarecer um pouco da minha posição. Eu poderia ser prático e separar o segmento autoral do segmento cover, mas em um contexto com tantos artistas circulando pelos dois universos e novas apostas autorais surgindo a partir da cena cover, prefiro desenvolver um pouco mais.

Para quem está por fora dessa realidade, acho que basta mencionar nomes como os de Gabi Luthai, Mariana Nolasco e Ana Gabriela, que juntas somam quase 6 milhões de seguidores no YouTube, além de Jão, que mesmo com um número bem inferior de seguidores, já acumula mais de 10 milhões de visualizações em seus vídeos e outros milhões de plays no Spotify. Em comum, além dos números impactantes e vídeos cover de músicas atuais e extremamente populares, há carreiras autorais que dão seus primeiros passos já com um número expressivo de fãs.

Nas últimas semanas, o Prêmio Multishow anunciou uma nova categoria na edição 2017: “Melhor Cover na Web”. Mesmo sendo uma categoria claramente criada para gerar buzz e aproveitar os milhões de fãs das cantoras indicadas, foi um fato que reafirmou o impacto que os covers estão gerando na indústria. Resolvi, então, buscar algumas análises, e…não achei praticamente nada. Entre listas de “Cantoras do YouTube que você precisa conhecer agora mesmo” e outras coisas do tipo, achei importante fazer o advogado do diabo uma análise mais crítica e levantar esse questionamento.

Longe de mim qualquer tipo de convicção contrária aos covers, inclusive tenho acompanhado o belo trabalho de diversos nomes dessa cena. Porém, acho válido fazer essa reflexão, principalmente por estarmos falando de um mercado que gosta de se colocar como inovador, mas que segue incentivando práticas que só reforçam o status quo.

Categoria Melhor Cover no Prêmio Multishow 2017 | Artigo Rebuliço - Autor: João Suprani - Título: A glamourização do cover é um problema?

Live no YouTube do Prêmio Multishow com as indicadas a “melhor cover web”

A hegemonia das majors

Após uma grande crise na indústria fonográfica, com mais de 10 anos de números decrescentes e uma guerra frequente à “pirataria” e à distribuição gratuita em programas de compartilhamento P2P, redes sociais e YouTube, as grandes gravadoras começam a se reerguer, principalmente devido ao avanço do streaming e à diversificação dos modelos de negócio.

Com essa retomada sustentada principalmente no ambiente digital, onde qualquer aspirante a artista pode apresentar seu material, a expectativa era que as majors passassem a descobrir talentos com maior facilidade e, a partir daí, investissem em novas carreiras artísticas. Não que isso não esteja acontecendo. Está. Porém, ao mesmo tempo, vejo que a glamourização dos covers de YouTube surgiu como uma ferramenta de marketing poderosa para o mainstream e seus hits, que, com menos custos, passaram a ter um alcance muito maior de público, com as diversas versões caseiras de suas músicas.

Sabemos que as grandes gravadoras ainda não assumiram totalmente esse tipo de resultado e, inclusive, a guerra de copyrights segue acontecendo e bloqueando diversos vídeos cover. Ainda assim, sinto que a indústria tem estado atenta e aproveitado os benefícios desses conteúdos criados pelo público e por micro-influenciadores.

Em um mercado que entende a música como produto de massa, explorando canções para além de seus potenciais artísticos, reproduzir outras milhares de vezes o que já está tocando incansavelmente só reforça posições definidas há anos: as tendências são percebidas e exploradas pelas majors e grandes produtoras, que passam a definir que tipo de música fará sucesso. Aos artistas, resta se adequar às fórmulas ou se conformar com os limites impostos por seus nichos.

A monetização sobre o espontâneo

Para entender de que forma os vídeos cover servem como ferramenta de marketing, é importante pensar inicialmente no surgimento de um hit. Uma música que geralmente segue um padrão de mercado, somada a um grande produtor, grandes músicos e muito – muito mesmo – investimento em marketing. Um lançamento estrondoso que contemple todas as plataformas possíveis: diversas aparições na TV, na rádio, no jornal, nas redes sociais e em milhares de sites. E assim o trabalho segue sendo feito para que o produto circule ao máximo e, de preferência, da forma mais espontânea possível. E essa é a grande questão: incentivar o “espontâneo”, gerar engajamento e monetizar em cima disso.

Mas por que “espontâneo”? Não acho que seja uma discussão para esse texto, mas, convenhamos, a repercussão de um conteúdo empurrado goela abaixo não necessariamente é natural ou sincera.

De qualquer forma, o ambiente digital preza pela naturalidade e recebeu de braços abertos os covers que pessoas comuns passaram a fazer. Um desconhecido com um rostinho bonito, uma boa voz, uma webcam e a reprodução de uma música que todos já adoram tornou-se praticamente uma fórmula para ter alcance nas redes. E é disso que o ciclo de hits inventados pela indústria tem se alimentado, já que o ritmo da internet é intenso e nem sempre há como produzir um conteúdo novo e manter a engrenagem girando. Mesmo que haja, um anônimo com muitos seguidores gravando sua música espontaneamente sai mais barato que lançar um novo single.

Foto de Mariana Nolasco se apresentando em seu canal do Youtube | Artigo Rebuliço - Autor: João Suprani - Título: A glamourização do cover é um problema?

Mariana Nolasco já acumula mais de 2,8 milhões de seguidores em seu canal com covers de hits nacionais

A busca pela fama

Apesar das questões citadas, não dá pra jogar toda a culpa nas grandes gravadoras e produtoras, muito menos nos grandes artistas. Esse movimento de consumo repetitivo já acontece há muito tempo, com estilos musicais sendo explorados incansavelmente e foi estimulado principalmente pela grande mídia (uma das principais gravadoras brasileiras é da Globo, inclusive).

Dentro dessa constatação, não dá pra esquecer o principal: o público absorveu essa ideia. A cada dia, a massa ignora o vasto leque de novidades oferecido pela internet e busca mais do mesmo. Quando o novo chega, vem de uma recomendação midiática.

E aí criou-se um problema: a internet não só amplificou essa busca por “artistas parecidos com alguém” por parte do público, como tornou ainda mais complicado o alcance do trabalho autoral, independente de sua qualidade artística.

Com isso, surgiu uma geração de artistas que buscam na reprodução de sucessos a fórmula para conseguir aparecer. E é aí que vejo mais um problema. Não que isso não acontecesse antigamente: a inspiração em outros artistas sempre houve, características artísticas muito similares também. Porém, a internet reforçou muito o potencial de um cover, mostrando um caminho aparentemente mais fácil para o sucesso. Sucesso sem nenhuma construção artística ou identidade própria, mas com muito público interessado em reproduções de seus hits favoritos.

Em um contexto onde, muitas vezes a fama é mais valorizada que o próprio trabalho, ser reconhecido passou a pesar ainda mais do que a vontade de produzir ou se expressar artisticamente. O processo de construção de uma carreira vem, cada vez mais, sendo engolido pela necessidade de ganhar visibilidade e acumular seguidores.

Arte a partir de indicadores

Alguns artistas que fizeram muito sucesso nesse universo cover já estão migrando para a carreira autoral. Todos os nomes citados no início desse texto já lançaram ou anunciaram singles, videoclipes e até EPs. Artistas como Anavitória e IZA, novos nomes que têm se destacado na cena pop e já possuem bons contratos com gravadoras, foram descobertas através de seus vídeos no YouTube.

Aparentemente, esse formato é a nova aposta para que haja investimento em um artista, e será cada vez mais explorado. E qual o problema nisso?

Artistas oriundos do cover de YouTube possivelmente norteiam seus trabalho autorais por indicadores. Os resultados de seus vídeos cover são formas de identificar as estratégias de persona artística, repertório e outros, seguindo aquilo que teve mais apelo junto ao público. Mais uma vez, estou falando uma situação que ocorre há muito tempo no mercado: identificar a tendência que está no auge e seguí-la. Mais uma vez, porém, temos o cover reforçando uma prática extremamente questionável artisticamente e que, na minha humilde opinião, foi responsável por sabotar diversas propostas inovadoras que não apareceram e possivelmente nunca serão apresentadas, por simples medo da reação do público ao novo.

Para piorar, essa tendência tem atingido até mesmo artistas já posicionados no mercado, mesmo que para um público de nicho. Entre os exemplos que se dedicaram a reproduzir a obra de outros artistas em troca de alcance podemos citar Silva, que regravou Marisa Monte no aclamado álbum “Silva canta Marisa”, lançado no fim do ano passado. Já o cantor Qinho, regravou quatro canções de Marina Lima e lançou o EP “Fullgás”. Dois artistas em pleno potencial criativo e de produção que deixam de lado todas as possibilidades de apresentar música autoral para seguir uma tendência de mercado “prestar uma bela homenagem”. Também podemos citar Tiago Iorc, um dos maiores nomes do pop brasileiro e, sem dúvidas, um grande produtor de conteúdo, que no ano passado embarcou no sucesso de “Bang”, da Anitta, e lançou sua versão em videoclipe, antes mesmo da original sair das paradas de sucesso. Três belos trabalhos, é verdade, mas que me trazem à cabeça uma grande pergunta: “Por quê?”.

Ou seja

O cover não é um fenômeno novo. Porém, sinto que seus milhares de desdobramentos na internet e a glamourização dessa prática reforçam algumas questões ruins do show biz. Precisamos problematizar quando um dos maiores prêmios de música popular do país inclui uma categoria de cover web, mesmo que seu valor artístico como premiação já seja bastante questionado. A influência dessa ação – ainda mais sendo um prêmio com voto popular – pode não ser positiva. Talvez tenha impactos irreversíveis nas expectativas do público sobre a produção musical brasileira.

Se há alguns anos atrás, tínhamos bandas cover que fugiam do rótulo, insistindo em falar sobre as características autorais de suas interpretações, hoje não há problemas em assumir-se cover. Inclusive espera-se que um novo artista cante covers, geralmente com a falsa expectativa de que ele “dê sua cara” aos hits.

Esse discurso de “interpretação autoral” de uma música conhecida é bem questionável, mas fica para outro momento. Também vale pensar em como a cena cover, dominada por artistas femininas, reforça o estereótipo de “mulheres intérpretes” na música brasileira, onde já há desvalorização da mulher enquanto compositora.

Enfim, é uma discussão polêmica e extensa, mas que deve ser colocada à mesa. A internet ainda segue sendo interessante para a música autoral e temos bons exemplos, como Liniker e Ana Vilela, que estouraram com as músicas “Zero” e “Trem Bala”, respectivamente. Temos também o caso da Ana Muller, que estourou na internet com seus vídeos de músicas autorais.

Porém, acredito que nós, produtores e artistas, precisamos ficar atentos, discutir e questionar essa realidade. Só assim evitaremos que o cover seja uma ferramenta de auto-sabotagem. Um incentivo para que, daqui a alguns anos, o público não se permita ouvir coisas realmente novas.

Para conhecer conhecer alguns nomes da cena cover, assista a playlist que preparamos:

João Suprani

Designer, produtor cultural e exímio frequentador de botecos e eventos no Centro do Rio. Paga de amante da MPB, mas se rende ao brega com alguma frequência. Não à toa, criou uma festa chamada Pseudo Cult. É apaixonado por música e faz bicos de DJ, além de ser um saudosista e nunca dispensar um amendoim aperitivo.

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