O insulto para acabar com todos os insultos

Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, O Insulto, de Ziad Doueiri, revive o sectarismo da Guerra Civil libanesa com drama de tribunal que opõe cristão a refugiado palestino.


Cena de filme O Insulto | Artigo Rebuliço - Autor: Pedro Andrade - Título: O insulto para acabar com todos os insultos - Capa Site

Em Beirute, um cristão rega as plantas de sua varanda. Inadvertidamente, molha um engenheiro palestino que coordena as reformas do bairro. Para evitar novos transtornos, o mestre de obras decide ajustar a calha da sacada. A ajuda, porém, não é apreciada. Os dois discutem. O diálogo termina em ofensa – a primeira de muitas trocadas pelos personagens de O Insulto, longa-metragem do cineasta Ziad Doueiri que chegou neste mês ao Brasil, após ser indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

Depois de ser xingado, o libanês Tony Hanna exige desculpas do construtor Yasser Salameh. Apesar da relutância, o palestino cede, mas a conversa conciliatória fracassa quando o cristão se irrita e dispara: “Gostaria que Ariel Sharon tivesse exterminado todos vocês”. A resposta vem na forma de um soco. Tony tem as costelas quebradas.

A briga se transforma na disputa jurídica que dá corpo ao filme. Ao longo da obra, os advogados de Tony e Yasser batalham por reparações. A querela, no entanto, não passa de um pretexto de Doueiri para revisitar a Guerra Civil do Líbano, conflito que dividiu o país de 1975 a 1990 e que foi tema do primeiro longa-metragem do cineasta, West Beyrouth (1998).

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Em primeiro plano, ao centro, Kamel El Basha como Yasser, ao lado de sua advogada Nadine Wehbe, interpretada por Diamand Bou Abboud. Foto: Cohen Media Group

Traços do conflito se insinuam desde a primeira cena de O Insulto, quando uma multidão em comício lembra a memória de Bashir Gemayel, antiga liderança dos falangistas, uma vertente da direita cristã libanesa.

Eleito presidente pelo Legislativo em 1982, Gemayel seria morto num atentado 22 dias após ser nomeado para o cargo. À época, as milícias sob seu comando lutavam, com o apoio do exército israelense presente no Líbano, contra grupos muçulmanos e palestinos. O falecimento do líder cristão precipita a invasão da parte ocidental de Beirute por Israel e os massacres levados a cabo pelos falangistas nos campos de refugiados palestinos de Sabra e Shatila, onde pelo menos 900 pessoas, entre mulheres, crianças e idosos, foram assassinadas. Sharon era, então, ministro da Defesa de Israel, cujas forças armadas foram acusadas de conluio com os falangistas, por terem permitido as operações nos assentamentos palestinos.

Em O Insulto, as rivalidades de outrora mostram-se tão assustadoras quanto atuais. Gemayel retorna ainda uma segunda vez, em vídeos exibidos na televisão de Tony nos quais o político acusa os palestinos de “vagar pelo mundo, arruinando tudo pelo caminho”. O diagnóstico não poderia soar mais contraditório no momento em que é reapresentado. Afinal, Yasser não traz desordem para o bairro de Beirute. Ao contrário, chefia reparos para melhorar a infraestrutura local e adequar edifícios a novos padrões legais de construção.

Com a obra de Doueiri, pela primeira vez um filme representará o Líbano na premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. No ano passado, o longa foi agraciado com o Prêmio de Melhor Ator do Festival de Veneza, concedido a Kamal el-Basha por sua interpretação de Yasser. A película tem o mérito de capturar convincentemente as contradições do Líbano contemporâneo.

O confronto na Justiça retraça a vida de cada um dos protagonistas. O processo é metonímico. As trajetórias de Tony e Yasser são apresentadas como sintomas de processos políticos mais amplos, como a diáspora dos palestinos que deixam sua terra natal, migram para a Jordânia, de onde são expulsos, e chegam, enfim, ao Líbano.

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Após ser insultado e agredido, Tony Hanna exige pedido de desculpas de refugiado palestino. Foto: Cohen Media Group

Na corte, a fotografia estourada traduz a obstinação dos advogados em desenterrar o passado, trazendo à luz o que pode justificar os erros de cada cliente ou incriminar seu adversário. Contudo, em O Insulto, a clareza dos argumentos não resolve o impasse. A iluminação estonteante de Doueiri não apaga as nuances do passado sombrio, que se imiscui na fronte dos personagens quando esses são enquadrados contra a luz.

Transpondo a tradição do “filme de tribunal” para o contexto libanês, o cineasta descobre mais de uma versão da história da Guerra Civil. “Num julgamento, sempre revelamos um segredo”, afirma o diretor. Em O Insulto, o que permanece escondido e vem à tona é o fato de que Tony também foi vítima, tendo sobrevivido ao massacre no vilarejo de Damour, atacado por milícias muçulmanas e palestinas em 1976.

O objeto do litígio deixa de ser qualquer compensação financeira ou pena pela agressão física. Antes, o que está em jogo é a validade de duas narrativas conflitantes que, quando sobrepostas, revelam uma verdade incômoda – na Guerra Civil, os lugares da vítima e do algoz tornaram-se intercambiáveis.

Doueiri mostra que a coexistência desses discursos divergentes não se dá de forma pacífica. Paralelamente ao embate na Justiça, multiplicam-se brigas de rua entre palestinos e cristãos, e o caso vira questão de Estado. Anular quem não concorda com outro ponto de vista é um preocupante indício de extremismo e da violência sectária. O escritor israelense Amos Oz lembra em seu livro Como curar um fanático que, “muito constantemente, o fanático só sabe contar até um; dois é uma cifra grande demais para ele ou ela”.

Making of do filme O Insulto | Artigo Rebuliço - Autor: Pedro Andrade - Título: O insulto para acabar com todos os insultos - Imagem 03
Cineasta Ziad Doueiri revive dramas da Guerra Civil libanesa e da diáspora palestina em disputa jurídica. Foto: Cohen Media Group

No longa de Doueiri, o sofrimento pretérito de uns legitima a perpetuação do ódio contra os outros. O trauma do passado parece ter plantado a semente do fanatismo, que, para Oz, “reside sempre numa autojustificativa sem concessões, uma praga com muitos séculos de existência”. Seria possível, então, romper o ciclo de violência? Para o criador de O Insulto, a resposta é sim. Todavia, o que começa no tribunal tem fim fora da Justiça – e consequentemente da dicotomia entre defesa e acusação.

Cinema e memória

Após o final do conflito civil, a Assembleia Nacional Libanesa aprovou, em 1991, uma lei de anistia para os crimes cometidos ao longo dos 15 anos de confrontos. A legislação abria caminho para que antigos senhores da guerra seguissem participando do jogo político.

Era o caso, por exemplo, de Elie Hobeiqa, um dos falangistas que liderava, em 1982, a articulação da milícia cristã com Israel. Após a morte de Gemayel, o militar alegou que Sabra e Shatila eram o esconderijo de 2 mil terroristas palestinos. O argumento justificou a incursão aos campos de refugiados e a subsequente matança. Nos anos 1990, Hobeiqa se tornou ministro para o reassentamento de populações deslocadas, uma triste ironia para quem foi responsável pela morte de refugiados palestinos inocentes.

Outro dado biográfico curioso – e que ressoa tragicamente a história do protagonista cristão de O Insulto – é o fato de que Hobeiqa teve grande parte de sua família, incluindo sua noiva, assassinada no massacre de Damour.

A doutora em Ciência Política e ex-diretora do Centro Internacional de Justiça Transicional no Líbano, Carmen Hassoun-Abou Jaoudé, lembra que a lei de anistia não garantia indulto para os envolvidos nos assassinatos de lideranças políticas e religiosas.

Em artigo publicado em outubro de 2017 no jornal libanês L’Orient Le Jour, a pesquisadora assinala que a legislação acabou criando duas categorias de vítimas: a de pessoas importantes e a de cidadãos comuns que viveram violações consideradas perdoáveis e, por isso, não tiveram seu sofrimento reconhecido.

Nos anos 1990, o Líbano é palco de uma progressiva reconstrução – política, social e material. As ruínas da guerra em Beirute são varridas pelo espírito de renovação, que faz da cidade objeto da especulação imobiliária. Com o governo encabeçado por antigos figurões da política e do poder armado, reabrir o dossiê da Guerra Civil era assunto delicado.

Como aponta Jaoudé, a ausência até os dias de hoje de uma política de Estado abrangente, que reconheça formalmente as tragédias particulares de todos os membros da sociedade libanesa, faz perdurar os ressentimentos e as mágoas dentro do país. A essa lista, é possível acrescentar o preconceito de cunho étnico, religioso e xenofóbico. Esse pano de fundo explica em, parte, a desconfiança de Tony em relação à Justiça, criticada pelo protagonista por ser parcial e comprada.

Heroicamente, desde o princípio da Guerra Civil, o cinema do Líbano consolidou-se como espaço de discussão dos problemas domésticos. Nos anos 1980, diretores como Maroun Baghdadi, de Pequenas guerras (1982), Borhane Alaouié, de Beirute, o encontro (1981), e Jocelyne Saab, de Uma vida suspensa (1985), levaram para as telas as vidas de pessoas comuns, cujos vínculos afetivos são estilhaçados e refeitos, e mais uma vez fragmentados, em meio às tensões sectárias.

A produção audiovisual mais recente também tem buscado passar a limpo esse episódio da história libanesa. O filme Volte para casa (2015), de Jihane Chouaib, acompanha o retorno da personagem Nada da França ao vilarejo libanês onde cresceu, para desvendar o mistério do desaparecimento de seu avô durante a Guerra Civil. Confrontada com vizinhos pouco receptivos, a protagonista suspeita que o patriarca da família foi assassinado na cidade. A descoberta do que de fato aconteceu é amarga – seu avô foi o autor de algumas das atrocidades dos tempos de conflito.

Outra obra significativa é E agora, aonde vamos? (2011), de Nadine Labaki. A cineasta põe em cena uma paulatina escalada de agressões entre muçulmanos e cristãos que habitam um pequeno vilarejo do interior. Incidentes entre as duas comunidades religiosas reacendem animosidades de um passado distante, que as mulheres tentam apaziguar para evitar novos derramamentos de sangue.

Nesses dois longas, o fantasma da violência ameaça retornar. Para esconjurar o sectarismo, Chouaib aposta na revisão histórica da negação, que substitui os acontecimentos por mitos e inviabiliza a reconciliação comunitária. Labaki faz uma crítica ferrenha da agressividade masculina, cuja irracionalidade pode provocar a morte dos próprios homens.

Num país onde as políticas de reconciliação são duramente criticadas por promoverem uma amnésia oficial, o caminho da aceitação da diferença é imaginado por Doueiri, em O Insulto, como uma rota que precisa ir além das instituições, para chegar à vida ordinária das pessoas, ainda que sob a forma de pequenos gestos de solidariedade.

*Números do massacre em Sabra e Shatila estimados pela Anistia Internacional.

**Aspas de Ziad Doueiri retiradas de entrevista concedida à rádio Europe1.

Foto de capa: À esquerda, o ator Adel Karam na pele de Tony Hanna. À direita, Kamel El Basha como Yasser Salameh. Foto: Cohen Media Group

Aonde assistir “O Insulto” no Rio de Janeiro.

Pedro Andrade
Pedro é jornalista, repórter multimídia e mestre em Comunicação pela UFRJ. Carioca com os pés no Brasil e os olhos para o mundo, escreve sobre cinema, arte contemporânea e direitos de minorias.

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