Eles têm talento pra isso!

Em Choque de Cultura, os maiores nomes do transporte alternativo brasileiro inovam ao debater sobre cinema em formato e linguajar extremamente originais.


Integrantes do Choque de Cultura em ação em um episódio | Artigo Rebuliço - Autor: Raphael Sanguinete - Título: Eles têm talento pra isso - CAPA

“Você que tava procurando um programa de cultura… Encontrou, porra!”

Com essa frase gentil e verdadeira, começa o 1º episódio do Choque de Cultura, programa do canal TV Quase com produção do Omelete, que reúne os maiores nomes do transporte alternativo brasileiro para debaterem sobre cultura
cinema Velozes e Furiosos.

Nos comentários, o programa conta com Renan da Towner Azul Bebê, sempre verdadeiro, perspicaz e preocupado com a felicidade de seu rebento; Maurílio dos Anjos da Kombi Branca 84, mais conhecido como palestrinha, um intelectual do transporte de produção de filmes que sabe tudo sobre cinema e como se portar enquanto um verdadeiro crítico de filmes; e Julinho da Van (Sprinter Branca), um homem ácido de silencios misteriosos e olhar profundo, mas que no fundo é um grande amigo.

No comando da atração está Rogerinho do Ingá (Sprinter Azul e Vermelha), um ser direto e sem papas na língua, que sabe priorizar as interações corretas dos participantes, cortando sem medo e magistralmente quando algum dos seus comandados resolve passar do ponto.

O encontro dos maiores nomes do transporte alternativo brasileiro para falar sobre temáticas culturais Harry Potter sem Harry Potter, para mim, é uma das melhores coisas que aconteceu no Youtube brasileiro em algum tempo.

Capa do Choque de Cultura com todos os integrantes | Artigo Rebuliço - Autor: Raphael Sanguinete - Título: Eles têm talento pra isso

Conheci o Choque de Cultura há aproximadamente 5 meses durante alguns episódios do Braincast, podcast do pessoal do site B9. Em uns 3 episódios quase seguidos, participantes diferentes do podcast indicaram a atração com vigor. No momento em que fui tirar um tempinho pra ver o primeiro, não teve volta, fiz o tal do “Binge-Watching” de todos os episódios já disponibilizados até então.

Aparentemente, em algum ponto entre o segundo e terceiro episódios, o pessoal do Omelete se interessou pela atração e alguma negociação/parceria aconteceu.

A produção, que não é das maiores e nem precisa ser, deu uma melhorada, o programa teve mais 6 episódios e a partir do fim de maio entrou em um novo hiato.

Hiato esse que é um pouco minimizado pelas postagens no Twitter dos pilotos. Como essa de uma parte do episódio 04 que não entrou no corte final ou o convite do Julinho para o palestrinha para lançarem uma dupla de pagode. E esse universo que o Choque de Cultura pode proporcionar na vida real, ao misturar seus personagens com a realidade, é uma de suas grandes forças.

Mas por que estou falando do Choque de Cultura? Não é só um programa humorístico maneirinho?

A meu ver, não.

Rogerinho do Ingá do Choque de Cultura no meme "Você tá errado" | Artigo Rebuliço - Autor: Raphael Sanguinete - Título: Eles têm talento pra isso

O Youtube e a produção audiovisual

Cada dia mais consumo programas do Youtube, e apesar do material rico e diverso que pode ser encontrado na plataforma, não há como negar que existe uma repetição de formatos pré-estabelecidos que chega a ser maçante às vezes.

Com algumas exceções que brilham pela originalidade como o maravilhoso Nerdologia, a maioria dos programas de maior alcance do Youtube são Vlogs ou programas de review/entrevista que não fogem muito do que já foi consagrado enquanto propenso ao sucesso desde o início do crescimento da plataforma.

Talvez o canal que mais impactou o Youtube no Brasil foi o Porta dos Fundos, trazendo um humorístico de esquetes de alto nível pra plataforma, em uma periodicidade quase inimaginável até então.

E até o Porta, apesar de continuar ótimo, contando com incríveis atores/roteiristas e provavelmente ter uma produção cada vez mais sólida, sofre com o passar do tempo. Não há como negar que seus esquetes já viram dias melhores, o que mostra a dificuldade de se criar para uma plataforma que necessita invariavelmente, para a continuidade do sucesso e da renda, uma quantidade de lançamentos contínuos quase sobre-humano.

E isso talvez leve à questão da simplicidade de formato e falta de inovação que é o comum na plataforma. É compreensível. E portanto, quando algo de diferente é feito e obtém sucesso, deve ser aplaudido.

A força do Choque de Cultura

Talvez o Choque de Cultura ainda possa ser considerado de nicho, pois em minha bolha noto que muita gente assiste/assistiu, porém o episódio com mais visualizações conta com “apenas” 160.346 visualizações (no momento desta publicação), apesar de todo o burburinho que já acontece ao redor da série. Enquanto isso, vloggers conhecidos, que seguem o padrão básico da plataforma ao fazerem vídeos falando coisas aleatórias para a câmera em um quarto com uma decoração maneira, abocanham números superiores a 1 milhão de visualizações por episódio.

Porém, o Choque de Cultura já começa a mostrar sua força, que advém em muito de seus maravilhosos chavões, como:

  • – Cê sabe o que é cultura jovem?…..
    – Urso.
  • – Porra, essa porra aí é Spin-Off.
    – Tu tá dando uma palestra pra explicar o que é cópia irmão? Como que tu chega em mulher?
  • – Você viu o filme?
    – Eu não vi o filme, mas eu vi Se eu Fosse Você 2
  • Filme Nacional tem livro também?
  • Só magia top Rogerinho!
  • Ele é devagar Rogerinho. Eu e minha ex-mulher a gente tem um parentescozinho…aí ele tem um aprendizado que é mais lento.
  • É tudo computador çaporra!
  • Não é um Transformers, né? Mas é um bom filme.
  • Infelizmente semana passada saindo do show da Ivete, atropelei um tamanduá….

Unindo essas frases de alto potencial humorístico com atuações maravilhosas, o resultado é um programa hilário e com piadas reproduzíveis em diversos contextos.

Assim, o Choque de Cultura, aos poucos, vai virando um ícone pop/memial genuinamente brasileiro, o que não é fácil de se encontrar por aqui se desconsiderarmos os programas televisivos que entrevistam presos engraçados ou que colocam famílias para brigar por relacionamentos e testes de DNA. Ainda mais difícil quando se trata de um programa de ficção.

Stickers do programa já foram lançados para mensageiros instantâneos como o Telegram, memes e Gifs de cenas começam a se espalhar pelas Redes Sociais e outros programas do Youtube, como o Nerd Office, já utilizam cenas do programa para compor partes cômicas de sua edição.

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Talvez por eu ser do Rio, eu tenha uma afeição além do normal pelo programa, tendo em vista que seus personagens, muito bem trabalhados como paródia de motoristas de transporte público/alternativo, são críveis mesmo em seus exageros para quem já rodou bastante pela cidade.

E esse é outro ponto forte da produção, ao trazer uma atuação impecável dos atores, que parecem estar à vontade e se divertindo tanto quanto nós ao interpretarem os “pilotos” do Rio de Janeiro, essa figura histórica e emblemática que faz parte do dia a dia do carioca. Pra quem tem dúvida de que ela existe no mundo real e não tá tão longe assim do que é apresentado no programa, basta relembrar o vídeo que ficou mais conhecido como “porrada entre motoristas de ônibus em frente ao Barra Garden”.

A porrada é maneira, mas a parte mais genial deste vídeo é mesmo a narração.

O potencial de uma estética popular

Ao falar sobre cinema, utilizando linguagem popular e personagens que são uma representação do povo, o programa, dependendo do caminho que seguir, pode acabar fazendo bastante pela cultura, mais até do que programas que buscam valorizar a mesma de forma acadêmica/com linguajar rebuscado.

Apesar de provavelmente não ser esse o objetivo dos caras, e apesar de não ter conseguido atingir a massa ainda, é inegável que criaram um formato com capacidade de impactar muita gente de uma maneira direta, verdadeira e divertida.

Por essa criação com potencial incrível de público e pela originalidade do programa, eles estão mais do que de parabéns!

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A galera por trás do programa não é novata e já acumula diversos humorístícos de sucesso em público e crítica. Entre os programas em que Caito Mainier (Rogerinho do Ingá), Daniel Furlan (Renan), Leandro Ramos (Julinho da Van) e Raul Chequer (Maurílio) já criaram, roteirizam, dirigiram ou fizeram alguma outra coisa, estão: Falha de Cobertura, Larica Total, Lady Night, Irmão do Jorel entre outros trabalhos para televisão, cinema e internet.

Apesar de curtir muito os outros trabalhos, para mim, Choque de Cultura é, até o momento, a obra definitiva dessa galera. Uma obra que pode inspirar outros criadores a pensarem em formatos mais originais para seus programas (me incluo aqui), uma obra que foge do lugar comum em estética e linguajar e que, através de uma paródia de maneira não ofensiva de personagens populares do Brasil, pode se aproximar do povão, fazendo isso enquanto apresenta cinema e não perde qualidade no principal, que é, no caso deles, o conteúdo humorístico.

Afinal, esse é o maior problema das produções brasileiras em suas mais diversas vertentes artísticas: equilibrar a qualidade do material com o apelo popular e de conversão de massa.

E esse é o único caminho viável para o crescimento sustentável e independente de nossas indústrias criativas. O Choque de Cultura ajuda a todos nós, ao efetivamente dar um passo adiante nessa frente de batalha.

Agora imagina o impacto: já tendo atingido a massa e contando com 2 milhões de visualizações por episódio, fazerem o review, utilizando suas falas honestas e geniais, de algum filme independente nacional que esteja entrando em cartaz ou de um disco novo de algum músico em início de carreira…

Vamos ver o que o futuro aguarda pros maiores e mais carismáticos nomes do transporte alternativo brasileiro.

Eles têm talento pra isso! Falo com tranquilidade.

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**Acesse o canal da TV Quase no Youtube ou dê play na playlist abaixo para assistir aos 8 episódios já lançados do Choque de Cultura.**

Raphael Sanguinete
Administrador, Produtor e Gestor Cultural, entusiasta da economia criativa e de novas tecnologias, no (pouco) tempo livre é tricolor de arquibancada, assíduo em botecos e admirador das coisas e personagens simples e sinceros que podemos encontrar mundo afora.

Eles têm talento pra isso!

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